Lagoa do Pé Leve, em Limoeiro de Anadia, agoniza em meio ao descaso e suspeita de desvios de verbas

Por em 13 de Agosto de 2016

Fonte: Carlos Alberto Jr; Davi Salsa e Roberto Baia 

– Jornal de Arapiraca 

Torrões de terra batida, água salobra, fetidão, esgotos a céu aberto. O que antes era uma lagoa abundante que unia os municípios de Arapiraca e Limoeiro de Anadia em alguns trechos e garantiu, por muitos anos, o sustento para centenas de pessoas, tem se tornado nos últimos anos uma área de desertificação em pleno Agreste alagoano.

O espaço usado por mais de 50 anos para cultivo de diversas espécies de peixes, como tilápias, tambaquis, traíras, piabas e diversas outras está praticamente resumido a poucos metros quadrados de água suja que mal serve para consumo de animais. Até plantas e vegetação nativa não sobrevivem às margens da lagoa do distrito Pé Leve.
A morte gradativa da Lagoa do Pé Leve obrigou a população que vive às margens de antigos mananciais a pensar em opções à pesca, como o plantio de mandioca, inhame e fumo, por exemplo. Porém, não existe água em quantidade para suprir a necessidade dos agricultores da região em torno da lagoa. Os moradores vivem na dependência de caminhões-pipa. Além disso, não há apoio público, de acordo com as informações colhidas pela reportagem ao longo desta semana.
O agricultor Miguel Messias disse que foi obrigado a deixar a pescaria, aumentar e diversificar a sua produção para continuar mantendo a família. “Hoje eu planto milho, feijão, fumo… Planto quase tudo durante o ano. Muita gente por aqui, inclusive eu, sobrevivia do peixe. Hoje em dia, não mais”, disse.
Ao longo da sua propriedade podem ser vistos dezenas de metros de canos responsáveis pela irrigação das suas plantações. Ele explicou que construiu dois poços artesianos a partir de duas cacimbas. “A água vem até aqui por gravidade. Tive que fazer tudo isso com dinheiro do meu bolso. Vi muita gente da região perder a roça por falta de incentivo”, revelou o agricultor.
 O caseiro e agricultor Cicero Ramos, de 71 anos, explicou que a desertificação da lagoa aumentou do ano passado para cá por conta da diminuição da chuva. “A gente pegava peixe aqui todo dia. A água batia nas canelas. Tinha muito peixe na lagoa e muita gente sustentou família com a venda de peixe”, disse o antigo pescador das horas livres.
A propriedade onde o agricultor Cicero Ramos reside numa pequena e gélida casa, já foi um criadouro de peixes. A abundância das variadas espécies fez com que um homem conhecido por todos apenas como “Japonês” comprasse há alguns anos as vastas terras para investir no promissor negócio. “Depois que a lagoa começou a secar, ele vendeu tudo e foi embora”, revelou. O terreno pertence hoje a um comerciante de Limoeiro de Anadia que iniciou a construção de um condomínio. 

Pai das 11 filhas

A aparência franzina e frágil do hoje aposentado Valdomiro Alves do Amaral, de 66 anos, esconde um pescador hábil que conseguiu, graças à sua habilidade, criar suas 11 filhas e ainda ajudar muita gente que batia em sua porta pedindo peixe para aliviar a fome.
O pernambucano reside há mais de 30 anos no distrito Pé Leve. “Não tinha serviço quando chegamos aqui. Decidi ficar na pescaria e não saí mais. Era tanto peixe que em quatro horas eu pegava até 15kg por dia. Não dava para quem queria. Região nenhuma tinha o peixe que a gente pescava aqui”, orgulha-se.
O pescado dele e de tantos outros pescadores da Lagoa do Pé Leve, a maioria já falecida, tinha como destino certo a chamada Feira do Peixe, tradicional ponto para comercialização dos animais localizada no bairro Brasília, em Arapiraca, a qual ajuda a movimentar a economia informal da cidade até os dias de hoje.
O velho e pequeno barco, construído pelas próprias mãos do aposentado Valdomiro, hoje está encalhado entre os torrões de terra formados pela desertificação da lagoa. Emocionado, ele sentou no barco para explicar à reportagem como fazia sua pesca e guardava o pescado. Levantando o chapéu, ele agradeceu a Deus pelos anos de pescaria que o ajudaram a criar e cuidar da prole. “Tenho fé que se chover, a lagoa vai encher de novo”.

Morte esperada

Aos poucos, o local que abrigava cerca de 100 pescadores foi sendo transformado. O senhor Valdomiro Alves lamenta que lanchas e jet-skis tenham invadido a lagoa, do mesmo jeito que os “estranhos”, como se refere aos proprietários de terras em torno da lagoa. De certa forma, diz o aposentado, ao seu modo, que eles contribuíram com a morte da Lagoa do Pé Leve. “E nunca deu em nada”, finalizou.
Os problemas envolvendo a desertificação da Lagoa do Pé Leve não podem ser resumidos apenas à falta de chuvas durante o inverno ao longo dos últimos anos, como pensam os moradores e também os antigos pescadores ouvidos pela reportagem do Jornal de Arapiraca. Boa parte deles, acredita que a escassez de chuva é a única responsável pelo problema.
O secretário municipal da Agricultura e do Meio Ambiente, José Niraldo, conhecido como Zezinho, explicou que a Prefeitura Municipal de Limoeiro de Anadia poderia ter feito mais pela localidade. No entanto, “são várias necessidades que a cidade ainda tem nessa área. Procuramos fazer a nossa parte, mas dependemos também de Arapiraca e também do Estado, por meio do Instituto do Meio Ambiente”.
Zezinho Niraldo diz que os maiores problemas são verificados no lado da lagoa que fica em Arapiraca. “Naquele lado, as terras são invadidas com mais frequência, o assoreamento é maior. Quando as chuvas estão reduzidas, como agora, podemos ver invasões de terras. Tem até um condomínio construído às margens da lagoa”, disse, frisando ainda que esse tipo de construção numa área protegida é ilegal.

Construções irregulares

Além do condomínio, outras construções incomodam os moradores do entorno da lagoa: Um restaurante e dois campos de futebol soçaite pertencentes a um mesmo proprietário; isso no lado de Arapiraca. O Jornal de Arapiraca procurou o investidor, identificado apenas como Almir, e não conseguiu localizá-lo.
Já no lado de Limoeiro de Anadia, o problema é ampliado, pois a quantidade de invasão de terras no entorno da lagoa é bem maior. “Quando somos informados, notificamos esses invasores. Eles ainda teimam, mas o fato é que ninguém pode invadir e nem construir nas margens, que integram área de preservação ambiental”, explicou.
Em março passado, um grupo de moradores do distrito Pé Leve protocolou junto ao Ministério Público Estadual (MPE), por meio da Promotoria de Justiça da Comarca de Limoeiro de Anadia, um pedido para intervenção do MPE com a finalidade de reverter as invasões e também preservar o entorno da lagoa. O responsável pela denúncia, José Soares de Farias, o Duda, afirmou que são várias as tentativas de invasão das margens da lagoa. “o que mais chamou a nossa atenção e revolta, foi o aterro feito para a construção de um restaurante”, falou.
Pelo documento, o grupo de moradores explica que houve a invasão da lagoa, seja pelo desmatamento do entorno, como também pela construção de residências, pelo desvio de águas para barragens e ainda pelo aterramento de um trecho, o que obstruía a passagem da água que abastecia a lagoa, vinda da cidade de Arapiraca, mais especificamente do Riacho Piauí.
Prefeitura cria “projeto turístico” para ressuscitar Lagoa do Pé Leve
O Jornal de Arapiraca teve acesso exclusivo a projetos e Limoeiro de Anadia enviados ao Ministério do Turismo que contemplam, em mais de R$ 1 milhão, obras de estruturação do que seria a orla da Lagoa do Pé Leve. Desse montante já foi liberado, de acordo com o Portal da Transparência do Governo Federal, só para um dos convênios, R$ 390 mil. A última parcela, liberada em novembro de 2015, foi de R$ 56.306,25.
O que chama mais atenção aos mais atentos é que da mesma forma que a água, a suposta orla da lagoa não existe, nem do lado de Arapiraca, nem muito menos no lado de Limoeiro de Anadia. Há cerca de duas semanas, pedreiros chegaram ao local para iniciar, após quase seis anos, a construção da praça de convivência com extensão aproximada de um quilômetro.
No local, já foram construídos três quiosques a serem usados por artesãos, já que uma das ideias é fazer da orla lagunar um ponto turístico da cidade. As construções em alvenaria foram erguidas há dois anos, segundos moradores ouvidos pelo Jornal de Arapiraca. “Fizeram tudo, menos colocar as portas e janelas. Depois abandonaram as obras. Em pouco dia, ladrões levaram as telhas, as ripas… Tudo o que puderam”, lembra uma moradora que não quis ser identificada.
Há alguns anos também foi construído um chamado muro de contenção que erve, na verdade, separar a futura praça da área hoje dominada pelo mato que margeia a lagoa quase morta. Em alguns pontos, a reportagem encontrou parte da alvenaria já ao chão, caracterizando o uso de materiais de qualidade duvidosa.
Os pedreiros que trabalham na obra, relataram o Jornal de Arapiraca que a previsão para término dos trabalhos, iniciados há duas semanas, é de dois meses, ou seja, a inauguração do espaço deverá acontecer com as devidas pompas municipais às vésperas das próximas eleições. 
Projetos antigos

De acordo com o Portal da Transparência do Governo Federal, existem alguns projetos que contemplam e incentivam o turismo na cidade localizada na região central de Alagoas e com pouco mais de 25 mil habitantes, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Num deles, datado de dezembro de 2009, existe a solicitação para liberação de verba no montante de R$ 487.500 para a construção de duas praças públicas e dois centros públicos para comercialização de produtos artesanais na orla.
O projeto defende que se trata de uma intervenção arquitetônica e de engenharia sustentável que irá “catapultar o turismo da região trazendo a oportunidade de geração de renda para os municípios da região. As obras serão executadas no distrito do Pé Leve, o maior do município com população com renda média familiar entre 2 e 3 salários mínimos”, justifica o texto.
A intenção real da Prefeitura Municipal era usar exatos R$ 1.772.093,35 na revitalização da orla lagunar na Lagoa do Pé Leve. Quando procurado na Secretaria do Planejamento de Limoeiro de Anadia, um dos engenheiros responsáveis pelas obras de construção da praça de convivência, Ruani Izidoro, alegou estar em compromissos de trabalho em Arapiraca e que só poderá atender a reportagem na próxima semana.
O secretário de Agricultura e Meio Ambiente, Zezinho Niraldo, disse que não é da sua competência tratar de assuntos ligados à liberação de recursos e prestação de contas.

Natureza sofre

Outro ponto levantado no documento pelos moradores e teria  contribuído para o avanço do assoreamento foi a retirada desenfreada de água da lagoa. “Mais de 400 carros-pipa por dia, com intuito comercial, do subsolo da região através de poços artesianos, o que provoca a queda do nível de água”. E isso tudo, de acordo com o documento enviado ao MPE, sempre aconteceu sem nenhuma fiscalização pelos órgãos competentes de Arapiraca, Limoeiro de Anadia e também do Estado.
 O comerciante Ednaldo Francelino da Silva, residente no distrito desde os seis anos, lembra que as primeiras nascentes da Lagoa do Pé Leve foram aterradas por fazendeiros da região. “Sempre vimos o descaso aqui. É sofrimento para a população e principalmente para a natureza. As nascentes não existem mais e nós quem perdemos”, ponderou.
Rígido em suas colocações, o comerciante pede investigação para o caso envolvendo a morte da Lagoa do Pé Leve. “E tem que ser rígida. A população precisa de esclarecimentos. Além de tudo isso, ainda suspeitamos do desvio de dinheiro público pela prefeitura [de Limoeiro de Anadia]”, finalizou.

Tentativas tardias 

Nos últimos anos, várias tentativas foram tomadas e outras ainda em andamento, por órgãos do governo estadual, na tentativa salvar o que ainda resta da Lagoa do Pé-Leve, que continua agonizando, apesar dos esforços de ambientalistas e de parte de alguns moradores do maior distrito de Limoeiro de Anadia.
Tais tentativas incluem projetos em piscicultura, para repovoar a lagoa, e de reflorestamento. A proposta é, com isso, voltar a garantir a geração de renda com qualidade de vida para centenas de pessoas que tiravam do lugar o respectivo sustento para as suas famílias.
Uma dessas importantes ações aconteceu em 2015, como parte do Programa de Distribuição de Alevinos, executado pelo Governo do Estado, por meio da Secretaria da Agricultura, Pecuária, Pesca e Aquicultura (Seagri).
Paralisado em 2014, o programa foi retomado no ano passado em mais de 50 municípios alagoanos. Em Limoeiro de Anadia e, no caso específico da Lagoa do Pé Leve, foram jogados milhares de alevinos de tilápia, tambaqui e curimatã. A ação também contou com a parceria da Companhia dos Vales do São Francisco e Parnaíba (Codevasf).
A mais recente tentativa de salvar a lagoa aconteceu na semana passada, com as ações do Projeto Alagoas Mais Verde. A equipe de Educação Ambiental do Instituto do Meio Ambiente de Alagoas (IMA) esteve na região do entorno da Lagoa do Pé Leve realizando o plantio de diversas espécies nativas para reflorestamento em parte da área envolta do antigo manancial, onde hoje a Prefeitura Municipal de Limoeiro de Anadia retomou as obras de construção da orla lagunar. 

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